sábado, 29 de maio de 2021

Poética e Nova Poética - propostas para um novo fazer literário

Poética (Obra ‘Libertinagem’ - 1930)

Manuel Bandeira


Estou farto do lirismo comedido

Do lirismo bem comportado

Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e

[manifestações de apreço ao Sr. diretor


Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho verná-

culo de um vocábulo

Abaixo os puristas


Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais

Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção

Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis


Estou farto do lirismo namorador

Político

Raquítico

Sifilítico

De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.


De resto não é lirismo

Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com

cem modelos e cartas e as diferentes

maneiras de agradar às mulheres, etc.


Quero antes o lirismo dos loucos

O lirismo dos bêbados

O lirismo difícil e pungente dos bêbados

O lirismo dos clowns de Shakespeare


- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.



Nova Poética (Obra ‘Belo Belo’ - 1948)

Manuel Bandeira


Vou lançar a teoria do poeta sórdido.

Poeta sórdido:

Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.

Vai um sujeito.

Sai um sujeito de csa com a roupa de brim branco muito

bem engomada, e na primeira esquina

passa um caminhão, salpica-lhe o paletó

ou a calça de uma nódoa de lama:


É a vida.


O poema deve ser como a nódoa de brim:

fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.


Sei que a poesia é também orvalho.

Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfa, as vir-

gens cem por cento e as amadas que

envelheceram sem maldade.


Os dois poemas acima podem ser conectados entre si ou apresentam uma intertextualidade voltada para o fazer poético. Nesse sentido, podemos usar o termo metapoesia (poesia que trata sobre a maneira de se construir poesia). Mas que estratégias são apresentadas nos dois textos e que apontam para fazer?

Como já conversamos anteriormente via Google Meet ou pelas postagens, a Geração de 22 ratificou os pressupostos teóricos defendidos pelos artistas participantes da Semana de Arte Moderna. Na literatura, pregava-se que o texto literário deveria se desconectar do academicismo (gramática impecável, vocabulário rebuscado), do formalismo (rimas e métrica), do tom solene (temas não voltados para o cotidiano) e do aspecto contemplativo da arte (a arte que deve ser admirada, contemplada).

Os dois poemas acima apontam na direção de um novo fazer literário.

No primeiro poema, o eu lírico apresenta dois tipos de lirismo (fazer poético). Um deles é o lirismo comportado e esse perfil é associado ao tipo de trabalho em que a rotina é a base. O outro lirismo é aquele que foge da previsibilidade e da rotina e esse novo perfil proposto é associado à loucura, à bebedeira e aos clowns (no teatro, são personagens maquiados de forma extravagante e se comportam de maneira a subverter as convenções comportamentais). 

O último verso sintetiza o desejo do eu lírico: - ‘Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.’ Isto é, o lirismo bem comportado metaforiza opressão, regulação, amarras.

No segundo poema, o eu lírico apresenta duas possibilidades de ação da poesia na vida das pessoas. A primeira é aquela que ele já sabe que existe e possui aspecto contemplativo, não agressivo, revigorante, metaforizado pelo orvalho e apropriado para o tipo de leitor que não deseja sair da zona de conforto. A segunda possibilidade de ação da poesia é aquela que causa algum tipo de desconforto ao leitor, desconforto esse metaforizado pelo imprevisto (no caso, algo que venha a manchar nossa roupa limpinha). 

O diálogo entre os dois poemas ficou claro para você?

Os dois poemas apresentam de formas diferentes, porém, na mesma direção, uma nova possibilidade do fazer poético no sentido de abandonarem a arte contemplativa, comedida, bem regrada e comportada e buscarem uma arte que seja marcada pela espontaneidade e pelo desconforto. 

Os dois poemas representam, na prática, a vontade dos Modernistas em apresentar algo novo em termos de literatura para o universo brasileiro.


Fernando Fernandes


Prefácio Interessantíssimo (Mário de Andrade)

 Prefácio Interessantíssimo

Mário de Andrade



Quando sinto a impulsão lírica escrevo sem

pensar tudo o que meu inconsciente me grita.

Penso depois: não só para corrigir, como para

justificar o que escrevi. Daí a razão deste

Prefácio Interessantíssimo.

[...]


Um pouco de teoria?

Acredito que o lirismo, nascido do

subconsciente, acrisolado num pensamento claro

ou confuso, cria frases que são versos inteiros,

sem prejuízo de medir tantas sílabas, com

acentuação determinada.

[...]


Pronomes? Escrevo brasileiro. Si uso a ortografia

portuguesa é porque, não alterando o resultado,

dá-me uma ortografia.

[...]


Escrever arte moderna não significa jamais

para mim representar a vida atual no que tem

de exterior: automóveis, cinema, asfalto. Si

estas palavras frequentam-me o livro não é porque pense com

elas escrever moderno mas,

por sendo meu livro moderno, elas têm nele

sua razão de ser.






COMENTANDO O PREFÁCIO INTERESSANTÍSSIMO


Prefácio Interessantíssimo  abre a obra ‘Pauliceia Desvairada’, uma série de poemas que descrevem diferentes aspectos da capital paulista.

Em relação aos trechos acima desse prefácio, temos algumas dicas de como a poesia deve ser entendida, em termos de arte moderna.

No primeiro trecho, percebe-se a importância de a poesia nascer a partir do que é gritado do inconsciente em oposição ao planejar. Significa que, diferentemente dos parnasianos que escolhiam cada palavra, temos agora, o inconsciente no processo criativo para, depois, sim, qualquer tipo de avaliação.

O segundo trecho ratifica o parágrafo anterior. O verdadeiro lirismo deve ser gerado no inconsciente e, depois, purificado em um pensamento claro ou confuso. E sem a preocupação com a forma (métrica, rimas, ritmo).

O terceiro trecho dá dica de como deve ser a linguagem literária. Escrever em brasileiro é a chave e se traduz em aproximar o texto literário à realidade linguística do brasileiro.

O último trecho cita como devemos enxergar a arte moderna. Na literatura, os elementos da modernidade devem frequentar o livro por esses elementos serem modernos, e não para mostrar modernidade.



A partir da leitura do texto em análise, temos:


1- Para Mário de Andrade, a poesia deve ser gerada conforme o inconsciente humano.


2- A posição de Mário de Andrade a respeito do uso da língua na construção dos poemas deve ser mais próxima do jeito brasileiro de se expressar.


3- A citação a frases que são versos inteiros (segunda estrofe) remete a uma característica do Modernismo: a dos versos sem compromisso com rima ou métrica.


4- Na terceira estrofe, o escrever em brasileiro significa escrever de um jeito mais próximo da nossa compreensão do que observar rigidamente as regras ortográficas portuguesas.


5- A presença de automóveis, cinema e asfalto na última estrofe se justifica por serem elementos da modernidade (para a época, é claro).


Fernando Fernandes


Discurso de Abertura da Semana de Arte Moderna

 DISCURSO DE ABERTURA DA SEMANA DE ARTE MODERNA

A emoção estética na arte moderna

Graça Aranha


Para muitos de vós a curiosa e sugestiva exposição que gloriosamente inauguramos hoje, é uma aglomeração de "horrores". Aquele Gênio supliciado, aquele homem amarelo, aquele carnaval alucinante, aquela paisagem invertida se não são jogos da fantasia de artistas zombeteiros, são seguramente desvairadas interpretações da natureza e da vida. Não está terminado o vosso espanto. Outros "horrores" vos esperam. Daqui a pouco, juntando-se a esta coleção de disparates, uma poesia liberta, uma música extravagante, mas transcendente, virão revoltar aqueles que reagem movidos pelas forças do Passado. Para estes retardatários a arte ainda é o Belo.

[...]

Que importa que o homem amarelo ou a paisagem louca, ou o Gênio angustiado não sejam o que se chama convencionalmente reais? O que nos interessa é a emoção que nos vem daquelas cores intensas e surpreendentes, daquelas formas estranhas, inspiradoras de imagens e que nos traduzem o sentimento patético ou satírico do artista. Que nos importa que a música transcendente que vamos ouvir não seja realizada segundo as fórmulas consagradas? O que nos interessa é a transfiguração de nós mesmos pela magia do som, que exprimirá a arte do músico divino. É na essência da arte que está a Arte. É no sentimento vago do Infinito que está a soberana emoção artística derivada do som, da forma e da cor. Para o artista a natureza é uma "fuga" perene no Tempo imaginário. Enquanto para os outros a natureza é fixa e eterna, para ele tudo passa e a Arte é a representação dessa transformação incessante. Transmitir por ela as vagas emoções absolutas vindas dos sentidos e realizar nesta emoção estética a unidade com o Todo é a suprema alegria do espírito.

Se a arte é inseparável, se cada um de nós é um artista mesmo rudimentar, porque é um criador de imagens e formas subjetivas, a Arte nas suas manifestações recebe a influência da cultura do espírito humano.

[...]

A remodelação estética do Brasil iniciada na música de Villa-Lobos, na escultura de Brecheret, na pintura de Di Cavalcanti, Anita Malfatti, Vicente do Rego Monteiro, Zina Aita, e na jovem e ousada poesia, será a libertação da arte dos perigos que a ameaçam do inoportuno arcadismo, do academismo e do provincialismo. O regionalismo pode ser um material literário, mas não o fim de uma literatura nacional aspirando ao universal. O estilo clássico obedece a uma disciplina que paira sobre as coisas e não as possui.

[...]

O que hoje fixamos não é a renascença de uma arte que não existe. É o próprio comovente nascimento da arte no Brasil, e, como não temos felizmente a pérfida sombra do passado para matar a germinação, tudo promete uma admirável "florada" artística. E, libertos de todas as restrições, realizaremos na arte o Universo. A vida será, enfim, vivida na sua profunda realidade estética. O próprio Amor é uma função da arte, porque realiza a unidade integral do Todo infinito pela magia das formas do ser amado. No universalismo da arte estão a sua força e a sua eternidade. Para sermos universais façamos de todas as nossas sensações expressões estéticas, que nos levem a à ansiada unidade cósmica. Que a arte seja fiel a si mesma, renuncie ao particular e faça cessar por instantes a dolorosa tragédia do espírito humano desvairado do grande exílio da separação do Todo, e nos transporte pelos sentimentos vagos das formas, das cores, dos sons, dos tatos e dos sabores à nossa gloriosa fusão no Universo.


Discurso na íntegra

http://lusalingua.blogspot.com/2017/03/discurso-de-abertura-da-semana-de-arte.html



Em relação à íntegra do discurso de Graça Aranha, quando da Semana de Arte Moderna destaco quatro trechos.

O primeiro trecho, também inicial, o orador já antecipa a reação do público em relação ao que será apresentado: horrores. Mas esses horrores devem ser lidos dentro da ótica de quem não está preparado para o novo na arte. Os horrores são, exatamente, a nova proposta para arte brasileira.

O segundo trecho apresenta o que deve ser a essência na arte. Muito mais do que traços, sons e ações coordenadas e comportadas, a arte deve ser arrebatadora, a arte deve ser fonte de desconforto, a arte deve ser fonte de emoções. É a arte como elemento de transformação.

O terceiro trecho cita alguns artistas e produções. Também leva o ouvinte a refletir sobre as armadilhas existentes no arcadismo (modelo artístico apoiado no equilíbrio, contenção de sentimentos), do academismo (valorização excessiva de tradições)  e do provincialismo (ligado a tradições, usos e costumes).

O quarto e último trecho é também a conclusão do discurso. Reitera que a renascença (nascimento) da arte brasileira não se dá a partir do que não existe, mas sim um novo nascimento, dessa vez,  livre da pérfida sombra do passado, livre das amarras da tradição e ratifica a necessidade de que toda a nossa experiência com a arte seja considerada também uma experiência estética. 


Fernando Fernandes


Experiências

 Experiências




Anteriormente, já havia contado para vocês um pouco sobre minha história profissional e que estou no Cemtn há muito tempo.

Mas há coisas que ficam escondidinhas no fundo da alma gente. É uma delas que quero compartilhar com vocês.

Uma delas foi quando pus os pés no Cemtn pela primeira vez. Foi no final de 1998, quando outros professores e eu estivemos aqui em reunião para escolhermos em qual escola de Taguatinga iríamos trabalhar. Naquela manhã, antes da reunião, eu me lembro da primeira impressão que tive sobre o colégio. Foi a melhor possível em termos de arborização, espaço físico e a sensação de que seria um local de liberdade. Daí o desejo de querer lecionar no Cemtn. A reunião teve início e eu fiquei na torcida de que a vaga no Cemtn fosse minha, apesar de ser um dos últimos a escolher. O improvável aconteceu. Consegui o Cemtn como local de trabalho.

De lá para cá, foram centenas de experiências. Não no sentido do exagero retórico. Foram sim, muitas. A oportunidade de ajudar uma equipe de alunos comandada pelo professor Morais no replantio da escola; vivenciar várias vezes o resultado de meses de ensaio de uma peça teatral a partir de romances brasileiros; o reencontro com ex-alunos pela cidade; um fim de dia letivo em que estava extremamente angustiado após um dia terrível de aula e, ao sair da escola e cumprimentar uma ex-aluna, ela me disse palavras que conseguiram curar meu interior. Ela era cega e enxergou o que os demais alunos não viram dentro de mim naquela tarde.

Na festa dos cinquenta anos do Cemtn, eu estava presente. Naquele dia, cheguei bem cedinho e fiz muitas fotos, com a escola ainda vazia. Que festa linda! Muitos idosos e idosas relataram sua passagem pelo colégio. 

Na comemoração dos 58 anos de existência da nossa escola, levo para meu coração mais uma experiência, O lançamento de um jornal virtual, o 'Cemtnews', os vídeos elaborados por alunos / Grêmio e o filme escolhido pela equipe gestora como ingredientes dessa maravilhosa festa foram perfeitos. 

Ontem, nove de abril, comemoramos mais um aniversário do Cemtn. São cinquenta e oito anos de existência e influência na sociedade de Taguatinga.

Minha gratidão a todos que, de uma forma ou de outra, contribuíram para o que temos hoje.

Minha gratidão a você que me lê.


Fernando Fernandes


terça-feira, 21 de abril de 2020

Orvalho Matinal

Então, lhe disse Isaque, seu pai: Chega-te e dá-me um beijo, meu filho.
Ele se chegou e o beijou. Então, o pai aspirou o cheiro da roupa dele, 
o abençoou, e disse:
Eis que o cheiro do meu filho é como o cheiro do campo,
que o SENHOR abençoou;
Deus te dê do orvalho do céu, e da exuberância da terra,
 e fartura de trigo e de mosto.
Sirvam-te povos, e nações te reverenciem;
sê senhor de teus irmãos, e os filhos de tua mãe se encurvem a ti;
maldito seja o que te amaldiçoar, e abençoado o que te abençoar.


(Gênesis 27: 26 a 29 - ARA)

*mosto = suco de uva ou de qualquer outra fruta antes do processo de fermentação

    
     A leitura de todo o capítulo 27 do Gênesis mostra que houve uma armação por parte de Rebeca e Jacó (o filho mais novo) no intuito de obter do pai a bênção que era exclusiva ao primogênito (o filho mais velho). Apesar da trapaça, havia o plano divino no qual o mais novo (Jacó) serviria ao mais velho (Esaú), conforme Gênesis 25:23. Caso se interesse, confira mais detalhes desse episódio e seus antecedentes: Esaú, o primogênito (Gênesis 25:24 a 26); Esaú vende seu direito à primogenitura a Jacó (Gênesis 25:27 a 34); e a própria armação por parte da mãe para favorecer o mais novo, mostrada acima.
    Quero destacar no discurso feito pelo pai, o que é dito sobre o orvalho de forma figurada. 
    O orvalho, processo inverso da evaporação, refresca, umedece, restaura, traz vigor. Ainda que sua formação se dê ao longo da noite, é pela manhã que a sua percepção é mais contundente. 
    Uma rápida navegação na internet é suficiente para mostrar diferentes momentos poéticos contidos nesse fenômeno natural. Entretanto, prefiro desafiar você na busca da essência que se esconde nesse interessante ato da natureza.
    É meu desejo  que o orvalho sempre faça parte da sua caminhada diária. E na falta de uma foto inédita sobre o orvalho, partilho essa,  tirada à noite no jardim de casa há cinco anos.




Fernando Fernandes

Semeando Vidas

 Naquela manhã de 1998, no auditório do atual colégio, eu e diversos professores estávamos à busca de uma outra escola em Taguatinga para lecionar. Minha condição era extremamente ruim, pois contava com apenas três anos de Secretaria. Antes do início desse encontro, caminhara pelo interior da escola. Alguém semeou vidas, pensei. mas não havia quem as alimentassem. Muita área verde subutilizada, mato para todo o lado, verde se transformando em cinza. Lembrei-me também da minha infância e adolescência em residência com plantas. Na reunião, e para minha surpresa, fui abençoado com uma vaga lecionar nessa escola no turno vespertino.
   Três anos mais tarde, foi instituída a jornada ampliada. Na prática, passei a trabalhar apenas nessa escola. Não precisaria de lecionar em um segundo colégio. Muito legal mesmo, mas aquelas plantas continuavam a perder seu verde, e a experiência pregressa com plantas junto à família continuava na mente.
   Oito anos após a aquela manhã, como acontecia a cada ano, professores se aposentavam e outros se apresentavam. Alunos começavam e terminavam o Ensino Médio. E o verde cada vez menos verde. Entretanto, um daqueles professores recém chegados, que também tivera experiência com plantas na infância, deu-me um tapa na cara. Sim. A experiência dele estava no coração enquanto a minha experiência  ainda estava no campo racional.
   Eis a diferença. Enquanto precisei de oito anos para entender o meu erro, esse colega notou de cara a agonia da flora. Com termômetros, constatou que a temperatura ambiente das salas de aula ao longo da tarde atingia a marca de 39 graus Celsius e que a área verde do colégio estava extremamente escassa. No lugar de buscar nas estâncias superiores uma solução que pudesse amenizar o desconforto em sala, agiu.
   Feita a sensibilização de todo o corpo docente e discente para o grave problema ambiental, feito o debate e a coleta de ações, entre outras atitudes de conservação do espaço pedagógico, decidiu-se reflorestar a escola.
   Como Davi frente a Golias, a empreitada começou. Mas as dificuldades...
   Havia a prática de queimadas e descarte de lâmpadas fluorescentes nas áreas não cimentadas. A coisa era tão arraigada que foi um custo acabar com esse vício. Mas as fogueiras continuavam.
   Não havia como irrigar essas novas vidas. A solução foi aproveitar a água usada das diversas pias de banheiros, encaná-las e levá-las até cada pé. Mas quando se fazia algum reparo no colégio, aqueles canos que estavam a serviço da natureza eram retirados em nome da economia de recursos ou por desrespeito ao trabalho, mesmo.
   Não existia mão de obra para cuidar das vidas que foram geradas. A equipe de manutenção e limpeza não tinha permissão e / ou interesse em participar dessa conservação. Como solução, um verdadeiro trabalho de sedução para que esse professor pudesse contar com cerca de dez alunos ao ano, considerando as três séries, como protagonistas dessa missão, simplesmente por amor à natureza e não a recompensa de uma nota maior.
   Quem olha para cima, para baixo e para os lados percebe a imensidão de cores existentes aqui. Estamos tão preocupados com a nota, com as aulas, com a correria  ou  com a informação da tela do celular que deixamos de reconhecer que outros deram de si para que tivéssemos o que possuímos hoje: uma verdadeira microfloresta, um microcerrado, fauna e flora exuberantes.
Da chegada desse semeador até o presente, treze anos se foram e cerca de trezentas formiguinhas, inclusive eu, participamos do privilégio em plantar e semear vidas.

Fernando Fernandes 

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Escadas

     Segundo o narrador de Ica e Tiãozinho (Um romance riscado à bala), da autoria de José Amaro da Silva e publicado em 2017 na cidade de Três Marias-MG, 

     ... aquela mulher sofredora, que lutou a vida inteira, foi criança sem nunca ter tido infância, passou pelas inconstâncias da adolescência, exalou perfume e sensualidade na sua juventude, construiu uma numerosa família e, agora, já mulher madura com a aparência desfeita pelo tempo, com as marcas de sofrimento e injustiças, se vê de pé, frente a frente com o resumo de toda a sua vida: a realização de seu sonho mais intrínseco, um banheiro com pia, vaso e chuveiro.

     Esse foi seu sonho, realizado sete antes do seu falecimento:

     ... Aqui no Barreiro, com os filhos que sobreviveram às mazelas da vida, já crescidos, um para cada lado, Ica, doente, é levada às pressas ao hospital São Francisco. Permanece internada por três dias. Retorna para casa no dia nove de outubro. A mulher que somente pôde ter um banheiro em casa, após ter dado à luz a 18 filhos, falece às dezoito horas, do mesmo dia, aos 52 anos, fraca, triste, decepcionada com tudo, e solitária ... 

     Tiãozinho, viúvo por não ter mais sua Ica por companhia, se lembra das palavras da mãe antes de sair de casa sobre as três coisas que ele deveria procurar e que, agora,  sabe quais são:

     ... Esfregou os olhos, viu os cristais que formavam em sua visão, pensou nas cores do arco-íris, então desvendou o enigma: o amor ela havia encontrado quando encontrou Ica; a verdade foi revelada a ele quando ouviu o texto bíblico "conhecereis a verdade e a verdade vos libertará"; a terceira que sempre procurou foi a justiça. Agora ele percebe que não foi pelo diamante que procurou por toda a vida, mas, sim pela justiça, E isso o decepcionou profundamente, pois em sua vida só encontrou injustiça.

     Sinceramente, não importa se Ica e Tiãozinho existiram apenas na imaginação do autor do livro ou se  realmente viveram em Barreiro Grande; se de seus 18 filhos, todos sobreviveram ao parto, se morreram antes de nascer e se algum deles foi assassinado já adulto; se o casal tinha de encarar os 28 degraus de barro, feitos no enxadão, entre sua antiga casa e a margem do rio São Francisco, multiplicado pela quantidade de vezes desse sobe e desce ao longo da vida para lavar vasilhas, para pescar, tomar banho etc. Na história do casal, há outras escadas: a ditadura militar, a opressão contra os mais pobres em que a bala era o principal instrumento de ação, a perseguição familiar, a corrupção policial.
     Nossa vida é uma escada com vinte e oito degraus esculpidos na terra compactada. Para acessar a água, tomar banho e buscar o sustento financeiro, o casal precisava  encará-la. Imagine essa escada após um temporal? Quantos escorregões essa família sofreu? Com ou sem decepções o casal sonhou, persistiu, lutou, venceu. Como se caracteriza a escada da sua vida que necessita ser transposta para você chegar onde você precisa?

Fernando Fernandes
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