sábado, 7 de julho de 2012

Já trocou de namorado(a) hoje?


      Há quase quinhentos anos, Camões já afirmara que todo o Mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades a partir da constatação de que os tempos, as vontades, o ser e a confiança estão sempre em processo de mudança. Por outro lado, Zygmunt Bauman traz à lume a ideia de sociedade líquida, na qual tudo é volátil, amoldável, flexível, temporário.
      Detalhemos melhor cada afirmação.
     No poema camoniano, ele parte das mudanças que ocorrem na natureza e nele mesmo como sustentação da sua tese, na qual tudo se modifica, seja para a melhor (na natureza) ou para a pior (sua própria vida). As novas qualidades não são sinônimo de aperfeiçoamento, obrigatoriamente. É que os versos Continuamente vemos novidades / diferentes em tudo da esperança explicitam claramente.
      Já no sociólogo contemporâneo polonês e radicado na Grã-Bretanha, a falta de investimentos a longo prazo nos relacionamentos, a necessidade que temos de comprar aquilo que, efetivamente, não nos falta e a constatação de que tudo é descartável são exemplos da liquidez social em que vivemos. Não há mais raízes, tradições. Há uma excessiva busca pelo novo, assim como a água assume a forma de qualquer coisa que a contém.
     Camões revela que a necessidade de mudança é inerente ao ser humano. Conforme ganhamos idade e experiência de vida, é normal que nossos valores se modifiquem. As relações familiares, assim como as escolares, profissionais, aquelas que envolvem namoro, noivado e casamento e outras relações, todas elas permitem troca de experiências a ponto de sermos um pouco de cada colega ou familiar que passou pela nossa vida, assim como eles são um pouco de nós. Daí as mudanças.
      Já em Bauman, sua leitura do mundo contemporâneo revela a patologia causada pela mídia e pelo consumo, pilares da pós-modernidade. Por exemplo, o governo brasileiro reduziu o Imposto sobre Produtos Industrializados dos automóveis zero-quilômetro para aumentar vendas, mas, por outro lado, tem divulgado que o funcionalismo federal não receberá qualquer reajuste de salário neste ano; os bancos e financeiras alardeiam redução de juros para incrementar a quantidade de dinheiro em circulação por meio do financiamento de bens e produtos, porém todos sabemos que boa parte da população brasileira está comprometida com prestações. A coisa está tão liquefeita que você tem a posse de um carro que não lhe pertence ou do celular da maçã que ainda pertence à operadora que lhe vendeu e, antes que você consiga quitar, se quitar, todas as prestações, já estará trocando por outro similar, só porque a lanterna traseira ficou maior ou a maçã, agora, está mordida dos dois lados. E nessa troca, você ganha o prazer de estar atualizado em relação ao produto que possuia, contudo, perde dinheiro e ganha mais prestações, até alguém seduzir você novamente. Nas relações que envolvem namoro, noivado e casamento, valores familiares e o que temos o hábito de definir como ética essa fluidez também ocorre. Basta um exercício de raciocínio. Com certeza, exemplos virão à mente.
      Se Camões afirma que as mudanças são inerentes ao ser humano e Bauman constata que há busca excessiva por mudanças, como conciliar a necessidade que há em nós em buscar o novo sem entrarmos na fluidez social?
      Ainda busco respostas. Você as tem?

Fernando Fernandes
     


sexta-feira, 15 de junho de 2012

Green ou gray?

     Há dez dias, refleti sobre as diferentes nuances relativas ao que se fala em oposição ao que se faz envolvendo o meio ambiente.
     Hoje, gostaria de aprofundar essa discussão por meio da pergunta que dá título ao que transcorrerá nas linhas abaixo tendo em mente a comunidade que passa a maior parte do dia comigo, de oito a oitenta anos.
     Caminhemos, então.
     Uma pessoa que viveu inserida no ambiente escolar por, no máximo oito anos, sabe que o chão de um auditório não é o lugar para se depositar papéis, copos descartáveis e vasilhames contendo refrigerante ou não. Pois é. Uma garrafa pet de Mineirinho na posição deitada acompanhada de copos descartáveis vazios sob cadeiras de um auditório foram notadas. E isso em um lugar onde só cabem cerca de cento e vinte pessoas e é usado ocasionalmente. Como deve ser uma sala de cinema localizada em um Shopping Center em relação a alimentos ingeridos? Só encontro uma resposta para esse tipo de procedimento: se cada um de conservar consigo seu lixinho e acondicioná-lo em uma lixeira (desculpe-me o pleonasmo), funcionários que fazem limpeza perderão seus postos de trabalho. Desemprego, to fora.
     Uma pessoa que trabalhou em um ambiente escolar por, no mínimo oito anos, é ciente de que lâmpadas fluorescentes tubulares - daquelas compridas - possuem em seu interior elementos químicos que prejudicam a saúde das pessoas e o solo. Também é ciente de que esses objetos devem ser descartados em locais que possam apontar para uma reciclagem futura. Lâmpadas como as citadas foram vistas na grama próximo – e pelo lado de dentro – a um portão de entrada de carros. Possivelmente, a justificativa para tal atitude passa pela dificuldade no manuseio, pois um acidente é possível. E como fica a integridade física do funcionário da limpeza urbana? E do catador de lixo? Cada um por si, e Deus por todos.
     Ufa! Já estou cansado de caminhar e ainda faltam considerar as queimadas em detrimento do acondicionamento do lixo, o uso abusivo da água ao invés de fechar a torneira ou controlar o fluxo, as luzes acesas sem necessidade, entre outras paisagens que poderíamos contemplar se não parássemos aqui. Descansemos. Depois, continuamos.
     Há vinte anos, aconteceu no Brasil a ECO 92. Hoje, o Rio+20. Em 2032, teremos o Rio+40; depois, o Rio+60, Rio+80, o Rio+, o Rio, o.
     E quantas conferências ecológicas precisarão acontecer para que eu e você transformemos o cinza em verde?





Fernando Fernandes



sábado, 9 de junho de 2012

Por um ambiente melhor

    No dia 5 de junho próximo passado, comemoramos o Dia Mundial do Meio Ambiente, inserido  na denominada Semana do Meio Ambiente. Também nesse mês, o Brasil sediará a Rio + 20, conferência da ONU que irá reunir líderes mundiais para discutir meios para fazer do nosso planeta um lugar melhor para se viver. Há vinte anos atrás, também no Rio de Janeiro, aconteceu a Eco92, com a mesma finalidade.
   Mas não é sobre discussões acaloradas promovidas por altas autoridades que quero discorrer. Desejo refletir, sim, sobre o que se fala em oposição ao que se faz. 
   Enquanto se gasta quantias imensas em seminários envolvendo líderes estrangeiros,  há sacos de lixo rasgados e esparramados pelo chão da rua onde moro. Aconteceu recentemente na porta da minha casa, quando fui acondicionar o lixo no suporte metálico que mandei instalar na calçada. Para minha surpresa e indignação, havia um saco de lixo rasgado com vidros quebrados, restos de refrigerante e papéis espalhados pela calçada. Por impulso, decidi não ajeitar, já que aquele lixo não me pertencia. Cheguei a voltar para dentro de casa. Mas... em respeito a alguém que também poderia se cortar naqueles vidros e  tão vítima quanto eu, voltei à rua munido de sacola plástica, vassoura e pazinha e contribuí para a melhoria do planeta naquele anoitecer.
   Enquanto campanhas educativas são veiculadas nas mais diferentes mídias em relação à separação do lixo (papel, plástico, metais, pilhas e eletrônicos, resíduos alimentares), a coleta domiciliar de lixo irá misturar tudo. Minha esposa, nesse ponto, é de tirar  o chapéu. Mesmo sabendo que todo o lixo que está acondicionado de forma separada será transformado em uma mistura homogênea após ser sido colocado no caminhão de coleta, minha amada continua a fazer a sua parte na coleta seletiva em prol de um mundo melhor. 
   Enquanto escolas promovem projetos voltados para a preservação do meio ambiente, as salas de aula e áreas externas precisam ser varridas a cada turno devido ao lixo esparramado pelo chão. Como professor de Ensino Médio em uma escola de Ensino Médio, sou testemunha ocular da história de como há  desperdício de mão de obra. Já tive o privilégio de me abaixar para pegar garrafa pet de refrigerante semicheia que rolava pelo corredor de um dos blocos de salas; já fui honrado em presenciar uma das senhoras que fazem a varrição da área externa do colégio catar copos descartáveis que já deveriam estar no lixo e, ao que tudo indica, estavam passeando pela escola. Quem sabe esses copos deveriam ser advertidos por matarem aula? Na época em que biscoitos do tipo salgadinho eram vendidos no colégio, era possível efetuar uma pesquisa de mercado em relação qual a marca/sabor mais apreciado sem precisar ir até à cantina ou fuçar nas lixeiras. Bastava esperar um pouco, pois os pacotes vazios chegariam até o pesquisador por ação eólica. No fim de tarde anterior ao Dia Mundial do Meio Ambiente próximo passado, meu colégio foi presenteado com a seguinte ação em prol da melhoria do planeta: a segunda fogueira ateada em um espaço de vinte dias.
     Sei que não sou perfeito, pois também tive o meu dia de pisada na bola. Naquele dia, ao sair do colégio, já no meu carro parado ao lado de um ônibus repleto de alunos em um semáforo, havia jogado um papel de bala pela janela. Se algum daqueles alunos me reconheceu naquele longínquo anoitecer ...


Fernando Fernandes
    



sexta-feira, 1 de junho de 2012

Estou de volta

   Estou de volta após seis meses de ausência. Sei que nada do que disser justifica minha ausência. Mas pretendo justificar o meu retorno.
   Nesse hiato, estive por vinte dias na cidade de São Francisco e arredores para rever uma parente que não via há bastante tempo. Também assumi novas funções na minha profissão após dezesseis anos de docência.
   Quantas ideias vieram à mente! Mas algo me segurava e não as exteriorizava. E as indignações em relação ao (des) governo local e nacional? Infelizmante, guardei-as só para mim. E as experiências agradáveis envolvendo uma cultura diferente? De tão especiais, mantive-as no meu coração. E em relação ao trabalho, senti-me inseguro e, ao mesmo tempo, acanhado em me abrir. E motivos para dividir existiram.
   Porém, as carinhosas e certeiras palavras como flechas na mão de uma exímia arqueira atingiram a fronteira que fica entre o corpo e a alma. E ela, mesmo sem enxergar (essa minha ex-aluna é completamente cega) conseguiu mirar e tocar no local exato dentro do meu ser há dois dias atrás. Ironicamente, essa mesma arqueira havia enxergado meu coração e, com suas palavras, mesmo sem saber do ocorrido, devolveu a alegria que me fora roubada* uma hora antes por outros alunos da turma em que eu estava a ministrar uma aula de literatura em uma tarde de 2011. Significam que uma mesma pessoa que não possui a capacidade de ver com seus próprios olhos pôde enxergar meu coração por duas vezes e modificar o curso da minha vida.
   Por fim, contemplo o meu interior e fico a indagar comigo mesmo quando serei capaz de enxergar com um orgão diferente dos olhos. Minha adorável arqueira, obrigado novamente pela lição.
   Aprendi que é possível enxergar com as mãos, é possível enxergar com o silêncio, com palavras suaves, com exortação firme, com um aroma suave. Mas o grande mistério é usar a ferramenta correta para aquele determinado momento.

Fernando Fernandes

* Caso se interesse pela experiência, leia a publicação Quem sabe, quem sabe, quem sabe... neste mesmo blog.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Como é bom ser aluno do CEMTM nessas horas!

     No início do ano, havia escrito sobre o fato de estarmos em uma fria em sermos alunos do CEMTN.
     Hoje, quero mudar o foco. E discorrer sobre as vantagens de sermos alunos dessa maravilhosa escola.
     E há alguma vantagem em ser aluno do CEMTN? É ou não é o CEMTN uma escola pública, sujeita a todo o tipo de violência verbal dita pela mídia? Está ou não está o CEMTN sujeito a cortes na sua verba orçamentária por conta de interesses contrários à educação por parte do governo? Está ou não está o CEMTN sujeito a greves das mais variadas ordens: professores, vigilância, limpeza, lanche, etc?
     Entretanto, é bom ser aluno do CEMTN nessas horas. Porém não nas horas que citei acima, porque o que detalhei no parágrafo anterior acontece ou pode acontecer em qualquer escola pública do mundo. Mas em outras horas.
     Nas horas que compuseram a tarde de hoje, 08 de dezembro de 2011, fomos conclamados a tomar a pílula vermelha, a única capaz de fazer com que vejamos a verdade. E para vermos a verdade, precisamos ler todo e qualquer tipo de texto (imagem é texto, roupa é texto, unha suja é texto, celular do ano é texto, texto é texto, tudo e texto) de forma madura e reflexiva para que o nosso foco esteja cada vez mais claro a ponto de não perdermos a direção dele até porque nós precisamos ser motoristas da nossa história, e não sermos, apenas, passageiros dela. Daí também a necessidade de escolhermos bem nossas amizades a ponto de podermos separar a amizade dos compromissos e responsabilidades atrelados à essa amizade. Não é porque sou seu amigo é que vou facilitar sua vida, quanto a notas, não é mesmo. Ser justo, honesto e respeitador é diferente de passar a mão. E quem educa, chama a atenção e pune quando necessário, ama verdadeiramente.
     Quanto ao timaço de vôlei que os professores formaram, que lição maravilhosa! Quero saber quem foi o infeliz, o degraçado, o insano que saiu afirmando por aí que o único período da vida que vale a pena ser vivida é a mocidade. No Arcadismo tem algo sobre isso. Você se lembra do Carpe Diem, viver o hoje como se não houvesse o amanhã? E olha que essa ideia já vinha lá dos tempos da Grécia e Roma Antigas (a poetisa grega Safo de Lesbos e os poetas romanos Horácio e Catulo já compunham poemas com essa temática), já que o Arcadismo (o poeta árcade português Bocage e  os árcades brasileiros Tomás Antônio Gonzaga e  Cláudio Manoel da Costa - todos do Arcadismo de língua portuguesa europeia e brasileira) tinha sua estética baseada na cultura greco-romana. Existe muita vida após a juventude. Eu que o diga. Até tive de fazer cirurgia no mindinho da mão esquerda por conta do vôlei! Ou é só jovem que quebra braço, perna, dedo, se machuca em esportes?
      E em relação ao que reclamamos? Reclamamos, sim, de barriga cheia! Quanta bagaceira por aí, e nós, todos aqui, alimentados, de banho tomado, participando de mais um Aulão, sendo respeitado e respeitando o semelhante, não é mesmo? Por isso, o sentimento de gratidão deve ser o máximo possível, a ponto de pararmos de pedir e passarmos a doar.  Quanto mais reconheço a bênção que tenho, menos vou sofrer por aquilo que não tenho.
     Se aplicarmos todas as lições acima em nossas vidas, com certeza, cada vez que ouvirmos alguém dizer que ficou com o troco que recebeu a mais ou que mentiu para o professor que estava com dor de barriga para escapar do zero na atividade que faltou ou, ainda, que se deu bem às custas do prejuízo de outra pessoa, no lugar de aplaudirmos, iremos vaiar. E, assim, estaremos a construir um Brasil mais justo, mais honesto, mais honrado.
     Isso foram apenas as duas horas da tarde de hoje no auditório. Foram cento e vinte minutos de pura cidadania e aconselhamento.
     Imagine as outras tardes desse ano. Foram os microfóruns do quarto bimestre combinados com a gincana, o trabalho com os sonetos, a linha do tempo, o sarau renascentista. Minha amada turma 2ºL apresentou seu sarau sobre o Romantismo, realizou seus microfóruns sobre os contos de Machado de Assis e sobre as novas regras do Novo Acordo Ortográfico. Sem falar na estupenda vitória no futsal. Se fosse detalhar o que acabo de citar e também detalhar que não citei, precisaria de um blog do tamanho do céu e de toda a água do mar para usar como tinta para imprimir tudo que estivesse lá escrito.
     Como é bom ser aluno do CEMTM nessas horas!

Fernando Fernandes

O que você já pediu a Papai Noel?

     No último final de semana, estava refletindo sobre minha infância em relação a Papai Noel. E o que eu ouvi do professor Marcos Paulo (ou simplesmente Marcos, o Tímido) no nosso Aulão da Despedida foi a centelha que faltava para escrever. Vamos à reflexão.
     Sinceramente, eu não me lembro se meu pai me incentivava a acreditar no bom velhinho. Mas me recordo de curiar a árvore de natal ao anoitecer do dia 24 e não ter presentes. Na manhã seguinte, lá estavam três presentes: um para mim, outro para minha irmã e outro para minha mãe.
     E vocês sabem como são os pensamentos. Parecem como puxar a pelezinha do cantinho da unha. A gente futuca, futuca e acaba sangrando. E assim aconteceu.
     Pensando especificamente no meu pai, que tive até meus 43 anos de idade (hoje tenho 51), cheguei à conclusão de que pedi poucas coisas para ele, embora ele me tenha dado tudo. Um desses pedidos foi um carrinho, do tipo cegonha (carreta que transporta automóveis de passeio) em um Natal. Ele me deu o dinheiro, fui até a loja e comprei-o. Nesse caso o Santa Claus não colocou nada sob a árvore.
     Quando trabalhei como balconista em uma padaria (nessa época, tinha 19 anos), precisava fazer um cursinho preparatório para uma determinada prova. Como havia revezamento de horário entre os empregados e nenhum deles quis facilitar minha vida, meu pai me cobria na semana em que eu perderia as aulas, tudo isso após ele cumprir sua jornada de trabalho. E isso eu não pedi ao meu pai. Ele sentiu minhas dores e, para aliviar as minhas, agravou as dele. Contudo, não foram em vão.
     Os anos se passaram, até que Deus me deu a honra de passar  com ele suas últimas doze horas de vida, após minha mãe, minha irmã, meu cunhado, alguns primos e conhecidos, lá no Rio, batalharem com ele bravamente contra um traiçoeiro, infame e sagaz inimígo: o câncer.
      É nesse ponto que entram as palavras sábias do professor Marcos. Vivemos em uma sociedade extremamante egocêntrica, ensimesmada, egoísta, subjetiva. É como fôssemos nefelibatas, isto é, estarmos vivendo nas nuvens, em um eterno mundo de fantasia em que tudo funciona e a justiça impera ou como se fôssemos obinubilados, isto é, cobertos por uma nuvem que nos impede de ver a realidade. Nessa ótica, o primeiro slide do Aulão trouxe a palavra BLINDNESS (cegueira). Em alguns momentos, um dos palestrantes usou o termo BLINDEX (tipo de vidro escurecido) e o termo BLINDADO ou BLINDAGEM,  (aquilo que proteje e não permite que nada penetre), esse eu não tenho certeza. Tudo isso, acrescentado da deletéria (destrutiva) ideia  do Papai Noel, em que pedimos, pedimos, pedimos e, claro, pedimos.
     Mas... o que o Marcos, o Tímido, disse de tão importante para você nesse último Aulão que fez com que você escrevesse?
      Respondo. Lá pelas tantas, ele disse que deveríamos parar de pedir e mudar de atitude, no caso, que deveríamos nos doar a alguém ou a alguma coisa ou a alguma causa.
      E a pelezinha que eu estava futucando há 96 horas atrás,  sangrou. Por mais que eu me considere um bom professor e me doe aos alunos, por mais que eu me considere um bom filho, um bom marido, um bom pai e um bom avô (é exatamente o que você leu), eu ainda devo. E muito.
     Quanto ao meu pai, não posso mais me doar a ele, pois ele não está mais aqui. Mas posso colocar todo o seu exemplo de vida, de dedicação à esposa e aos filhos como um padrão a ser seguido. E cada vez que consigo imitá-lo, é como se eu me doasse um pouco a ele, mesmo sem ele saber. Ainda tenho como me doar a aqueles que estão ao meu redor, inclusive você.
     Mas... e o Papai Noel? Está perdido nessa reflexão?
     Não. Porque se existiu algum Papai Noel, este foi, certamente, meu pai. 

Fernando Fernandes
    
     

sábado, 10 de setembro de 2011

1º/2º anos - Se o poeta Antero de Quental estivesse vivo...

       Se Antero de Quental (Antero Taquínio de Quental, líder estudantil universitário e um dos destaques na literatura portuguesa da segunda metade do século XIX) estivesse vivo presenciasse um episódio ocorrido em uma aula de literatura, especificamente quando um de seus poemas estava sendo analisado, penso que ele sentiria extrema vergonha.
       Entendamos melhor o contexto histórico de Antero de Quental para depois entrarmos na proposta dessa reflexão.

      Jovens estudantes da universidade de Coimbra (que fica em Coimbra, Portugal), já se interessavam por novas correntes filosóficas, políticas e artísticas que surgiam pela Europa, principalmente na Alemanha, Inglaterra e França, e começaram a defendê-las no meio acadêmico. Um deles, Antero de Quental, fundou a Sociedade do Raio em 1861 com aproximadamente 200 integrantes. Em 1865, Feliciano de Castilho escreveu, em represália, uma carta-posfácio ao editor do livro Poemas da Mocidade, de Pinheiro Chagas, na qual fazia irônica referência aos jovens Antero de Quental e outros, defensores da nova arte, dizendo que lhes faltava bom senso e bom gosto. Antero de Quental revidou ao publicar um folheto que atacava o velho mestre Feliciano de Castilho. Em suma, ao longo da duração da Questão Coimbrã, houve um embate ideológico por meio de publicações de textos que, por um lado, defendia a tradição existente; por outro lado, a renovação, a mudança, o novo.

       Em 1868, foram organizadas as Conferências Democráticas do Cassino Lisboense. Nessas palestras, se objetivava a discussão pública de assuntos artísticos, filosóficos e científicos de interesse para os intelectuais da época. Contudo, quando a sexta palestra iria acontecer, o Estado português mandou interromper as conferências por entender que tais palestras propagavam “doutrinas e proposições que atacam a religião e as instituições políticas do Estado; e sendo certo que tais fatos, além de constituírem um abuso do direito de reunião, ofendem clara e diretamente as leis do reino e o código fundamental da monarquia, que os poderes públicos tem a seu cargo manter e fazer respeitar”.

       Certo ou errado, Antero de Quental e o seu grupo acreditava em mudanças e lutaram por ela.

      Na arte, Antero produziu sonetos que provocava ao leitor no sentido de mudança, de luta. Conheçamos um desses sonetos.

A um poeta
(surge et ambula)

Tu que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno.

Acorda! É tempo! O sol, já alto e pleno
Afugentou as larvas tumulares...
Para surgir do seio desses mares
Um mundo novo espera só um aceno...

Escuta! É a grande voz das multidões!
São teus irmãos, que se erguem! São canções...
Mas de guerra... e são vozes de rebate!

Ergue-te, pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate!

       No soneto, podemos dividi-lo em duas imagens: a do eu-lírico e a quem o eu-lírico se dirige.

      Sobre o eu-lírico – é alguém que deseja mudanças e se vale dos verbos no imperativo em uma sequência gradativa no início da segunda, terceira e quarta estrofes (acorda, escuta, ergue-te) para despertar o interlocutor. Explicando melhor:

      Acorda – Se o Sol espanta as larvas que existem nos túmulos, o interlocutor será esse Sol que está faltando para surgir um novo mundo e espantar as larvas que representam as coisas pelas quais se desejam remover dos túmulos, nossa sociedade, nosso mundo.

      Escuta – Os irmãos do interlocutor estão entoando canções. Mas não são quaisquer canções. São cantos de guerra. Se o interlocutor prestar atenção no que está sendo cantado, certamente ele participará desse canto e participará do processo de mudança junto aos demais que cantam. Dessa forma, as larvas serão espantadas.

      Ergue-te – O eu-lírico chama o interlocutor de Soldado do Futuro, alguém que empunhará a espada e participará da luta por mudanças. Para que  interlocutor parta para o embate, ele primeiro acordou para depois escutar o que estava sendo proposto e por fim, levantar-se e partir para a peleja.

      Sobre o interlocutor – é alguém que está na indiferença, tanto faz como tanto fez. A imagem que o eu-lírico usa para explicar essa indiferença está em toda a primeira estrofe: alguém que está a dormir serenamente à sombra de uma grande árvore milenar como se fosse um levita (sacerdote) em frente ao altar em completa atitude de contemplação. E para transformar a indiferença em ação, as ações de acordar, ouvir e erguer são propostas nas três estrofes finais do poema, já explicadas acima.

       E sobre o incidente que envergonharia o autor desse poema, o português Antero de Quental, se ele estivesse vivo hoje? Explico.

      Imagine o poeta Antero de Quental a presenciar a seguinte situação: Um professor estava aplicando a uma das suas turmas  exatamente o poema acima em uma atividade de análise escrita quando um grupo de alunos de uma outra turma pediu ao professor para dar um aviso sobre um evento que ocorreria na manhã seguinte na Esplanada dos Ministérios contra a corrupção e a impunidade. Considerando a importância do recado, foi permitido o aviso.

     Em relação aos que ouviram o recado, muitos  debocharam, acharam graça, menosprezaram o esforço daqueles que se propunham a lutar contra a corrupção, como se não  acreditassem que poderia ocorrer uma reviravolta na nossa situação política.

     Antero de Quental sentiria extrema vergonha daqueles que ouviram o recado e ainda menosprezaram aos que propunham mudanças.

      E o paralelo entre Antero de Quental e o episódio na sala de aula, além da vergonha?

     É simples: o eu-lírico equivale aos alunos que deram o recado sobre o evento na Esplanada da manhã seguinte; como o Sol que espanta as larvas tumulares, esses alunos querem espantar as larvas da corrução e da impunidade. O  interlocutor (especificamente aqueles que estão indiferentes à mudança), são aqueles  que ouviram o recado dado e menosprezaram a proposta de mudança, como se estivessem satisfeitos com as larvas que permeiam os túmulos.
     E você, leitor, como você se avalia em relação ao futuro, não só o político, mas ao futuro em geral? Temos ou não temos condições de promover mudanças, quer seja numa manifestação pública, quer seja individualmente quando se diz a verdade? Você está satisfeito com as larvas que povoam nossas instituições sociais, políticas e religiosas?

    Se ninguém acreditasse em mudanças, a mulher votaria hoje? Se ninguém acreditasse em mudanças, teríamos um presidente retirado do seu cargo? Se ninguém acreditasse em mudanças, teríamos hoje o passe-livre estudantil no DF? Quantas larvas foram removidas, não é verdade?

     Se você está satisfeito com as larvas que estão ao seu redor, continue agindo como alguém que esteja deitado, dormindo em um espírito sereno à sombra de uma grande árvore.

     Caso não, faça como o Sol: espante as larvas. Acorda, Escuta e Ergue-te. Parta para a luta.

Fernando Fernandes